Estiquei os braços num longo espreguiçar, retesei os pés no limite
quente do lençol. A outra metade da cama era fria quando vazia, senti a
falta de um café forte e de algo que me confortasse o estômago. Apesar
de ser feriado, incitei o corpo a abandonar a preguiça, metendo os pés
nas pantufas de pêlo de ovelha, enrolando-me num largo casaco de malha.
Tomei o pequeno-almoço na poltrona voltada para a varanda, a
casa em silêncio, lá fora um dia claro cheio de Outono apelava ao
recolher. Precisava de mudar a pelagem, como uma raposa que sente o
branco invernoso avançar, resgatar da zona mais recôndita do roupeiro os
agasalhos quentes. A manhã torna-se proveitosa, o tempo verte-se lento e
acumula sacos de excessos junto à porta, com destino determinado.
Desço à arrecadação por detrás dos lugares de garagem, a
quietude é pontualmente interrompida pelas bombas da cisterna e pelo
automatismo da porta que anuncia a chegada ou a saída de um veículo. O
silêncio mortiço não me incomoda minimamente, perco-me pelos objectos
aqui deixados. Um carro estaciona, o motor cala-se e é substituído pelo
trautear de uma melodia conhecida. Reconheço a voz, canta ocasionalmente
no chuveiro…
Se o pecado mora ao lado, estou sem dúvida a falar no vizinho do
quarto direito. Segura a porta do elevador quando me vê surgir, e
depois ajuda-me com a caixa cheia de livros que resolvi expiar do
esquecimento. Parou de cantar, faz conversa de circunstância
acompanhando-me até ao meu capacho.
Existem diversos pecados, desde os mortais aos veniais, sendo
estes últimos mais leves, ligeiros… mas se não confessados, levam-nos ao
Purgatório. Oh! O Purgatório… não me importava de o visitar pelo braço
deste diabo de biceps musculados, mãos largas e um queixo quase
quadrado. Convido a entrar e a aquecer-me.
Se o pecado morasse ao vosso lado, batiam-lhe à porta, ou mudavam de endereço? Desde esse dia ganhou a alcunha de Sr. Pecado.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
sábado, 5 de novembro de 2011
na zdravie! capítulo IV
Não me responde, parece que aprendeu comigo, apenas sorri e tem um jeito
muito próprio de o fazer, não é excepcionalmente belo, tem algo de
estranho, talvez seja isso que me encanta. Esta singularidade diabólica
que desenha nos lábios, um lobo matreiro de dentes aguçados,
dissimulados numa branda pelagem de carneiro.
A mão desliza do joelho para o interior da coxa, o que era apenas dedos a passearem inocentemente pela minha derme arrepiada, tornam-se repentinamente num toque excitante, e confessa o quanto está feliz por me ter encontrado. Convido-o para me fazer companhia até à praia, conheço um areal pequeno, praticamente deserto pela arriba que dificulta o acesso. Inclina-se sobre mim para me beijar, os lábios encontram-se, sinto a garganta seca, o coração dispara, abro ligeiramente as pernas em perfeita e distante sincronia com os lábios, os dedos dele tocam-me, e a língua vai entrando numa boca que já conhece sem constrangimentos. Suga-me, enrosca-se qual trepadeira, deliciosa a boca, infernais os dedos.
Empurro-o, resisto, reclina-se na lona com ar satisfeito, sabe o que provoca, acabou de o saborear na ponta dos dedos que lambe com prazer. Quem o vê até julga que está saciado com um lauto manjar. Não são dedos nem pele, parecem mais garras cobertas de escamas aveludadas, escarlates lâminas que se cravam em mim. Paga os cafés e a água que escorreu veloz na minha garganta, levo-o pelo braço enrolado no meu, deixa-se ir mais uma vez sem desculpas, confiando nos meus instintos de navegante até à orla marítima, onde a vegetação sucumbe ao vento.
O negro das altas escarpas xistosas funde-se ao longe com vales cobertos de verde, numerosos veios avermelhados e alaranjados rasgam a superfície da falésia, um areal dourado tranquilo repousa no fundo, qual tesouro escondido de olhares alheios, banhado por um mar que oscila nas vagas e brinda-nos com a brisa fresca deixando o sabor do sal retido na pele. Uma praia quase deserta, um fim de dia que reclama o sol e entrega em justa recompensa a noite, sentando-se no trono uma lua nem tão cheia quanto isso.
Os corpos nus encontram-se depois de beijados pelo mar morno, dissimulados do mundo numa reentrância escavada na pedra solta pela força da natureza. Apoia-me numa rocha mais lisa, abre-me para que o receba em investidas compassadas, como as ondas que rebentam, abruptas, espumadas na areia, sinto-o dentro de mim, num momento infinito até me afogar nele. Sela o acto com um beijo. Um beijo terno, em tudo idêntico ao que demos à porta do hotel em Bratislava. Encosta a cabeça à minha, olhos de um profundo cinzento, doce abismo para a minha alma.
-que rocha escura é aquela? Aponto para a escarpa que desce abrupta. O mesmo sorriso intrincado surge no lábio, e na pronúncia que aperta os erres responde.
- fine-grained igneous rocks… Schist! Rise in proud hills, carved out by the hand of time, rocky tones face the watery depths of blue and the emerald green of the ocean floor…
A mão desliza do joelho para o interior da coxa, o que era apenas dedos a passearem inocentemente pela minha derme arrepiada, tornam-se repentinamente num toque excitante, e confessa o quanto está feliz por me ter encontrado. Convido-o para me fazer companhia até à praia, conheço um areal pequeno, praticamente deserto pela arriba que dificulta o acesso. Inclina-se sobre mim para me beijar, os lábios encontram-se, sinto a garganta seca, o coração dispara, abro ligeiramente as pernas em perfeita e distante sincronia com os lábios, os dedos dele tocam-me, e a língua vai entrando numa boca que já conhece sem constrangimentos. Suga-me, enrosca-se qual trepadeira, deliciosa a boca, infernais os dedos.
Empurro-o, resisto, reclina-se na lona com ar satisfeito, sabe o que provoca, acabou de o saborear na ponta dos dedos que lambe com prazer. Quem o vê até julga que está saciado com um lauto manjar. Não são dedos nem pele, parecem mais garras cobertas de escamas aveludadas, escarlates lâminas que se cravam em mim. Paga os cafés e a água que escorreu veloz na minha garganta, levo-o pelo braço enrolado no meu, deixa-se ir mais uma vez sem desculpas, confiando nos meus instintos de navegante até à orla marítima, onde a vegetação sucumbe ao vento.
O negro das altas escarpas xistosas funde-se ao longe com vales cobertos de verde, numerosos veios avermelhados e alaranjados rasgam a superfície da falésia, um areal dourado tranquilo repousa no fundo, qual tesouro escondido de olhares alheios, banhado por um mar que oscila nas vagas e brinda-nos com a brisa fresca deixando o sabor do sal retido na pele. Uma praia quase deserta, um fim de dia que reclama o sol e entrega em justa recompensa a noite, sentando-se no trono uma lua nem tão cheia quanto isso.
Os corpos nus encontram-se depois de beijados pelo mar morno, dissimulados do mundo numa reentrância escavada na pedra solta pela força da natureza. Apoia-me numa rocha mais lisa, abre-me para que o receba em investidas compassadas, como as ondas que rebentam, abruptas, espumadas na areia, sinto-o dentro de mim, num momento infinito até me afogar nele. Sela o acto com um beijo. Um beijo terno, em tudo idêntico ao que demos à porta do hotel em Bratislava. Encosta a cabeça à minha, olhos de um profundo cinzento, doce abismo para a minha alma.
-que rocha escura é aquela? Aponto para a escarpa que desce abrupta. O mesmo sorriso intrincado surge no lábio, e na pronúncia que aperta os erres responde.
- fine-grained igneous rocks… Schist! Rise in proud hills, carved out by the hand of time, rocky tones face the watery depths of blue and the emerald green of the ocean floor…
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Medo ou falta de oxigénio?
Acordei em sobressalto, o coração a mil parece querer cavalgar sem
arreios pelo peito, descontrolado, ainda sinto as mãos dele em volta do
meu pescoço, tão real como se tivesse mesmo acontecido, a pressão na
cartilagem da traqueia, mãos firmes, e no meu agitar vertia as forças
que se perdiam, braços pesados como chumbo, pernas congeladas, amarradas
sem acção… queria gritar, atingir com dureza aquele rosto ausente de
gente, de voz, de cheiro… uma cara vazia, mas era ele sem dúvida, aquele
que por vezes me atormenta, em silêncio me habita o sonho,
infiltrando-se sorrateiramente pela madrugada nos meus pesadelos. Um
arrepio percorre-me, mas estou a salvo.
Voltei-me depois de confirmar com um sorriso que ainda tinha três horas para dormir, dá-me sempre alguma tranquilidade saber que ainda me resta tempo, e três horas parecem uma eternidade. Raramente retorno ao pesadelo, mesmo que me sinta com forças e no intimo o queira confrontar, armada até aos dentes… prefiro não o fazer, fecho os olhos e espero o aconchego de um sonho… um sonho especial… daqueles como o outro chamou de Puff... Mesmo que no fim desapareça numa nuvem!
Encolho-me, está mais frio, sei que de lado ele não volta para me importunar. Porque será que isto acontece? Sempre que acordo de um pesadelo encontro-me em posição de decúbito dorsal. Será maior o esforço para respirar, e o cérebro fica privado de algum oxigénio, ou será que não passa de um medo ancestral, expor o abdómen relaxadamente… algo digno de um animal dominante, já vi alguns felinos dormirem assim, mas o instinto diz-nos que devemos assumir uma posição mais defensiva, e até porque sinto frio, encolho-me. E enquanto penso nisto, desligo lentamente o meu consciente… Uma libelinha desenha um voo à minha frente, pousando num bule de chá...
Voltei-me depois de confirmar com um sorriso que ainda tinha três horas para dormir, dá-me sempre alguma tranquilidade saber que ainda me resta tempo, e três horas parecem uma eternidade. Raramente retorno ao pesadelo, mesmo que me sinta com forças e no intimo o queira confrontar, armada até aos dentes… prefiro não o fazer, fecho os olhos e espero o aconchego de um sonho… um sonho especial… daqueles como o outro chamou de Puff... Mesmo que no fim desapareça numa nuvem!
Encolho-me, está mais frio, sei que de lado ele não volta para me importunar. Porque será que isto acontece? Sempre que acordo de um pesadelo encontro-me em posição de decúbito dorsal. Será maior o esforço para respirar, e o cérebro fica privado de algum oxigénio, ou será que não passa de um medo ancestral, expor o abdómen relaxadamente… algo digno de um animal dominante, já vi alguns felinos dormirem assim, mas o instinto diz-nos que devemos assumir uma posição mais defensiva, e até porque sinto frio, encolho-me. E enquanto penso nisto, desligo lentamente o meu consciente… Uma libelinha desenha um voo à minha frente, pousando num bule de chá...
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Sr. Piercing
Sente-se bem? Sussurra o Sr. Piercing, estendendo um maço de lenços aberto.
Aos primeiríssimos acordes da nona de Beethoven, não contive as lágrimas cheias que me rasgaram o rosto, caindo desamparadas nas mãos que seguravam a emoção na echarpe. Foi assim que conheci o Sr. Piercing, na sala Suggia de uma noite de lua cheia, emocionada por uma interpretação magnífica. Ao intervalo devolvi-lhe o maço fechado, e reparei no piercing discreto que ostentava no trago de uma orelha perfeita. Segui atenta o desenho do lóbulo, o recorte da hélix cartilaginosa, a depressão da concha… absolutamente distinta! O concerto ainda não tinha recomeçado, mas eu dirigia-me a ele junto ao ouvido, agradecendo a preocupação, elogiando o pavilhão auditivo!
A nona sinfonia foi apresentada pela primeira vez a 7 de Maio de 1824, no Kärntnertortheater, em Viena. Beethoven foi dissuadido da regência devido ao seu avançado estado de surdez, tendo direito a um lugar especial no palco, junto ao maestro. Sonho com essa estreia, como terá sido comovente, e no final toda a plateia a aplaudir de pé, cinco vezes! Imagino o colorido dos lenços e dos chapéus erguidos no ar, para que Beethoven que não ouvia, pudesse pelo menos ver.
A plateia aplaudiu duas vezes, em pé. Aproveitei a segunda para voltar a contemplar a perfeição da aurícula, desejosa por saber se a outra também era assim… convidou-me para um café. E do estímulo quente do vício, saiu outro convite… um passeio, da minha língua, na orla da sua orelha! Desde esse dia ganhou a alcunha de Sr. Piercing.
Aos primeiríssimos acordes da nona de Beethoven, não contive as lágrimas cheias que me rasgaram o rosto, caindo desamparadas nas mãos que seguravam a emoção na echarpe. Foi assim que conheci o Sr. Piercing, na sala Suggia de uma noite de lua cheia, emocionada por uma interpretação magnífica. Ao intervalo devolvi-lhe o maço fechado, e reparei no piercing discreto que ostentava no trago de uma orelha perfeita. Segui atenta o desenho do lóbulo, o recorte da hélix cartilaginosa, a depressão da concha… absolutamente distinta! O concerto ainda não tinha recomeçado, mas eu dirigia-me a ele junto ao ouvido, agradecendo a preocupação, elogiando o pavilhão auditivo!
A nona sinfonia foi apresentada pela primeira vez a 7 de Maio de 1824, no Kärntnertortheater, em Viena. Beethoven foi dissuadido da regência devido ao seu avançado estado de surdez, tendo direito a um lugar especial no palco, junto ao maestro. Sonho com essa estreia, como terá sido comovente, e no final toda a plateia a aplaudir de pé, cinco vezes! Imagino o colorido dos lenços e dos chapéus erguidos no ar, para que Beethoven que não ouvia, pudesse pelo menos ver.
A plateia aplaudiu duas vezes, em pé. Aproveitei a segunda para voltar a contemplar a perfeição da aurícula, desejosa por saber se a outra também era assim… convidou-me para um café. E do estímulo quente do vício, saiu outro convite… um passeio, da minha língua, na orla da sua orelha! Desde esse dia ganhou a alcunha de Sr. Piercing.
sábado, 22 de outubro de 2011
ode a meia Pizza
Coça a barba e num sorriso tímido,
fala-me do almoço,
malogrado e tardio.
Meia pizza, das congeladas…
Esquecida por tempo indeterminado,
Às voltas no micro-ondas …
Perdida? Pergunto,
não contendo um brilho nos olhos.
Nem por isso, apenas “Ressequida”
Uma tosta redonda…
Sem tomate suculento,
Ou mistura de queijos a desfiar pela orla…
desalento!
“Que queres, sou homem…”
Suspiro!
E embora o aspecto não seja divino,
Quero provar!
“Tens a certeza?” Pergunta, na dúvida…
Só um bocadinho…
E corta a metade que sobrou, tensa sobre a faca,
E da metade da metade,
corta um canto mais pequeno…
Que provo e… adoro!
fala-me do almoço,
malogrado e tardio.
Meia pizza, das congeladas…
Esquecida por tempo indeterminado,
Às voltas no micro-ondas …
Perdida? Pergunto,
não contendo um brilho nos olhos.
Nem por isso, apenas “Ressequida”
Uma tosta redonda…
Sem tomate suculento,
Ou mistura de queijos a desfiar pela orla…
desalento!
“Que queres, sou homem…”
Suspiro!
E embora o aspecto não seja divino,
Quero provar!
“Tens a certeza?” Pergunta, na dúvida…
Só um bocadinho…
E corta a metade que sobrou, tensa sobre a faca,
E da metade da metade,
corta um canto mais pequeno…
Que provo e… adoro!
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
o domador alado
Consoante o tempo que dedicava a uma amizade, isso manifestava-se na
dificuldade em escolher uma prenda para oferecer. Procurei lembrar o que
tinha comprado no ano anterior, senti necessidade de começar a tomar
notas, fazer uma agenda com as datas e completar com os respectivos
presentes, adicionando lembretes fundamentais, como por exemplo não
oferecer brincos à Elvira… só reparei que nem sequer tinha as orelhas
furadas quando ela ficou com um sorriso amarelo, mirando com estranheza
para os pendentes com contas indianas que lhe comprei pelo Natal.
Deambulei meia perdida pelas estantes repletas de livros, a quantidade de sugestões e edições era assombrosa, cada vez que lia a contracapa de um título sugestivo, ainda ficava mais indecisa. E senti-o, silencioso mas presente, asas albas que sussurravam em uníssono: Tânatos…
-Trabalhas aqui? Perguntei, sem o encarar, mantendo os olhos na primeira contracapa que me apareceu pela frente.
-Sim… em que posso ajudar? Disse numa voz tranquila mas repleta de descrença, ocultando a pergunta que lhe ocupava a mente.
-Precisava de ajuda na escolha de um livro… um presente de aniversário. E olhei-o directamente nos olhos doces… terrivelmente doces. Fraquejei e ele sentiu, desviando a doçura para os livros nas estantes.
-Preferência por autor? Disse caminhando à minha frente… prendendo a minha atenção nas suas asas brancas, comuns mas invulgares, que se encolhiam na minha presença…
-Pergunta o que quiseres sobre mim…
Ele sorriu e percorreu duas estantes com a ponta dos dedos sobre as saliências das capas. Parecia um domador de lombadas, pronunciando palavras mágicas inaudíveis para os meus ouvidos, travando uma secreta conversação com os títulos. Voltou com um livro na mão e libertou a pergunta que mantinha aprisionada, não sei se por timidez ou polidez...
-Asas de Tânatos… És a morte?
-Não, sou apenas uma mensageira…
-Nunca vi umas asas como as tuas…
-Não há muitas por ai.
Ficamos especados, medindo o comprimento das palavras, escutando o que as asas nos diziam, e o que recitavam ou declamavam umas às outras, até sermos interrompidos por um ser desasado. Num tom estridente e ausente de delicadeza, reclamou a atenção dos olhos de mel. Ele muito cordial pediu um minuto à senhora vermelha de raiva, retomando o olhar na minha direcção. Sorte a dela não ser a mim direccionada aquela raiva, apetecia-me sentir o frio do gatilho e ter a sua cabeça redonda e vermelha na mira da minha arma…
-Recomendo este… se não gostar pode sempre trocar… no entanto deixo o aviso, os livros assim como as pessoas, não gostam de ser devolvidos às estantes, ficam ressentidos…
Sorri, tinha um jeito peculiar de falar que enfeitiçava tanto os livros como quem os lia. Agradeci a prestável ajuda e sai sem olhar para trás, sentindo os seus olhos ainda presos nas minhas asas.
Deambulei meia perdida pelas estantes repletas de livros, a quantidade de sugestões e edições era assombrosa, cada vez que lia a contracapa de um título sugestivo, ainda ficava mais indecisa. E senti-o, silencioso mas presente, asas albas que sussurravam em uníssono: Tânatos…
-Trabalhas aqui? Perguntei, sem o encarar, mantendo os olhos na primeira contracapa que me apareceu pela frente.
-Sim… em que posso ajudar? Disse numa voz tranquila mas repleta de descrença, ocultando a pergunta que lhe ocupava a mente.
-Precisava de ajuda na escolha de um livro… um presente de aniversário. E olhei-o directamente nos olhos doces… terrivelmente doces. Fraquejei e ele sentiu, desviando a doçura para os livros nas estantes.
-Preferência por autor? Disse caminhando à minha frente… prendendo a minha atenção nas suas asas brancas, comuns mas invulgares, que se encolhiam na minha presença…
-Pergunta o que quiseres sobre mim…
Ele sorriu e percorreu duas estantes com a ponta dos dedos sobre as saliências das capas. Parecia um domador de lombadas, pronunciando palavras mágicas inaudíveis para os meus ouvidos, travando uma secreta conversação com os títulos. Voltou com um livro na mão e libertou a pergunta que mantinha aprisionada, não sei se por timidez ou polidez...
-Asas de Tânatos… És a morte?
-Não, sou apenas uma mensageira…
-Nunca vi umas asas como as tuas…
-Não há muitas por ai.
Ficamos especados, medindo o comprimento das palavras, escutando o que as asas nos diziam, e o que recitavam ou declamavam umas às outras, até sermos interrompidos por um ser desasado. Num tom estridente e ausente de delicadeza, reclamou a atenção dos olhos de mel. Ele muito cordial pediu um minuto à senhora vermelha de raiva, retomando o olhar na minha direcção. Sorte a dela não ser a mim direccionada aquela raiva, apetecia-me sentir o frio do gatilho e ter a sua cabeça redonda e vermelha na mira da minha arma…
-Recomendo este… se não gostar pode sempre trocar… no entanto deixo o aviso, os livros assim como as pessoas, não gostam de ser devolvidos às estantes, ficam ressentidos…
Sorri, tinha um jeito peculiar de falar que enfeitiçava tanto os livros como quem os lia. Agradeci a prestável ajuda e sai sem olhar para trás, sentindo os seus olhos ainda presos nas minhas asas.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Enchanté
Voltei a Paris no fim de Setembro, desta vez sozinha e em trabalho.
Apesar dos motivos que me faziam regressar à Cidade Luz serem muito
diferentes, senti a mesma emoção, a mesma paixão arrebatadora,
completamente rendida aos encantos da cidade. Entre o aeroporto e o
hotel mil e um pormenores cativavam a minha atenção, fiz um esforço para
controlar o ímpeto de saltar do táxi e ir conhecer ruas e ruelas pelas
quais nunca tinha caminhado, cafés, restaurantes e bares que não
provara, lojas, feiras, museus, monumentos que não tinha visitado… Uma
semana em Paris e pouco vimos para além dos locais mais turísticos, a
torre Eiffel, o Arco do Triunfo, Notre Dame e o Louvre num constante
tornado puxada pela mão dele, passando a maior parte do tempo no quarto
do hotel a explorar o corpo um do outro, de todas as formas possíveis e
imagináveis. E que corpo… sentia um calor crescente nascer no meio das
coxas, tomando conta de mim cada vez que recordava aqueles momentos de
volúpia, vivendo dias sem saber se eram noites.
-Une Bourgogne Pinot noir s'il vous plaît.
-Bouchard Aine, mademoiselle?
-Oui, parfait! Disse ao empregado de ar insolente, na esplanada do La Tartine, pedindo para além do vinho, um pão delicioso e uma tábua de queijos divinal. Marais é um bairro encantador de ruas estreitas, repleto de cor, magia, brilho… o sol mesmo tímido dava um ar místico a todos os recantos, e eu abandonava-me de perna cruzada numa cadeira em palhinha, cansada do passeio de domingo, fechava os olhos por detrás dos óculos escuros, deixando que os sons e os odores da cidade me preenchessem, sentia-me muito feliz por ali estar. Tudo em Paris parece harmonioso, conjugado na perfeita medida, charme, arte e cultura.
O telemóvel tocou-me na pouca vontade de o atender, um número anónimo lembrava-me as razões para ali estar. Não me apetecia, não tinha vontade de saber. Só queria voltar as costas, abandonar toda a vida até aí vivida e recomeçar, partir do zero, apaixonar-me... entregar-me intensamente! Atendi desanimada perante a falta de coragem para enfrentar o meu destino, como se fosse um touro ensanguentado na arena a que recuso olhar, do outro lado uma voz familiar meiga e doce fez-me sorrir e dizer alto.
-Oh quantas saudades! Que é feito de ti miúda?
Desliguei com um sorriso nos lábios, olhando incrédula para o visor. E ele aproximou-se, senti a sombra pairar sobre mim, o perfume de homem penetrou-me os sentidos sem eu me aperceber.
-Posso? perguntou puxando a cadeira ao lado da minha. Nem respondi e ele sentou-se, justificando que tinha ouvido a conversa, e que já não conseguia ter paciência para os franceses, que eu o tinha de ajudar a ver-se livre do colega que se aproximava acenando alegremente com o jornal debaixo do braço…
-Tem preferência pela forma de extermínio? Perguntei séria e profissional, tirando um cigarro do maço que o Don Juan me estendia.
-Só o consigo imaginar degolado… O homem fala pelos cotovelos, até tem aberturas no casaco!
-Degolado nos dias de hoje é pouco comum, vou ver o que se consegue arranjar.
O tal colega barrigudo e de sorriso permanente no rosto preparava-se para ocupar a terceira das quatro cadeiras da mesa, quando o senhor perfumado de cigarro pousado no canto do lábio se levantou e me apresentou.
-Laissez-moi vous présenter à …. Marta, ami de longue date ... vient d'arriver à Paris et j'ai promis de l'emmener pour un tour …
- Je m´appelle Judite!
-Pardonne-moi… Judite! Corou o individuo perfumado.
-Enchanté mademoiselle! Disse o senhor barrigudo mas cordial, apertando-me a mão gentilmente.
Deixei-me arrastar pelo ar certo dele, toda a composição lhe assentava como uma luva, desde a camisa em linho descontraída casada com umas calças claras, o cabelo denso e escuro salpicado em prata, o olhar indeciso entre um azul e cinzento. Olhei para trás para o senhor desolado entregue ao jornal, e o empregado quase feliz com a gorjeta que o cavalheiro galante lhe deixara juntamente com o pagamento da minha despesa, enquanto nos dirigíamos para Place des Vosges.
-Juan Belmonte ao seu dispor! Apresentou-se fazendo uma vénia teatral.
-Como o toureiro que lia livros?
-Prefiro as leituras às lides…! Disse com um sorriso modesto nos lábios. – Janta comigo, é o mínimo que posso fazer por me teres salvo da companhia do belga.
-Não te conheço de lado nenhum, Juan Belmonte!
-Mas não é isso que eu sinto… e não é isso que tu sentes…pois não? O homem nunca se deve por em posição de perder o que não se pode dar ao luxo de perder.
-Hemingway…
-Sinto que te conheço… sei que te conheço… aliás… E fez uma pausa absorvendo do ar uma porção invisível de eloquência. - Sei tudo o que há para saber sobre ti!
Um calafrio percorreu-me a espinha e procurei controlar os sentidos enrolando no pescoço o lenço indiano em tons quentes. Mas não era o calor da seda que eu sentia, mas dos seus dedos, puxando-me a boca na direcção da dele. Savolium, como os romanos denominavam o beijo profundo.
O primeiro de todos os beijos sacudiu-me leve pelo éter como se fosse uma pena, privando-me da segurança do chão. O segundo de todos os outros estremeceu a terra fazendo com que as estrelas perdessem o seu lugar, e no terceiro senti-me explodir de prazer, inundado o meu sexo desejei morrer naquele instante. Chamou um táxi. As mãos exploravam o que os olhos não viam, deixando-se guiar como amantes cegos ávidos de prazer. Paris passava iluminada ao anoitecer pelas janelas do automóvel, mas que interessava agora...
-Une Bourgogne Pinot noir s'il vous plaît.
-Bouchard Aine, mademoiselle?
-Oui, parfait! Disse ao empregado de ar insolente, na esplanada do La Tartine, pedindo para além do vinho, um pão delicioso e uma tábua de queijos divinal. Marais é um bairro encantador de ruas estreitas, repleto de cor, magia, brilho… o sol mesmo tímido dava um ar místico a todos os recantos, e eu abandonava-me de perna cruzada numa cadeira em palhinha, cansada do passeio de domingo, fechava os olhos por detrás dos óculos escuros, deixando que os sons e os odores da cidade me preenchessem, sentia-me muito feliz por ali estar. Tudo em Paris parece harmonioso, conjugado na perfeita medida, charme, arte e cultura.
O telemóvel tocou-me na pouca vontade de o atender, um número anónimo lembrava-me as razões para ali estar. Não me apetecia, não tinha vontade de saber. Só queria voltar as costas, abandonar toda a vida até aí vivida e recomeçar, partir do zero, apaixonar-me... entregar-me intensamente! Atendi desanimada perante a falta de coragem para enfrentar o meu destino, como se fosse um touro ensanguentado na arena a que recuso olhar, do outro lado uma voz familiar meiga e doce fez-me sorrir e dizer alto.
-Oh quantas saudades! Que é feito de ti miúda?
Desliguei com um sorriso nos lábios, olhando incrédula para o visor. E ele aproximou-se, senti a sombra pairar sobre mim, o perfume de homem penetrou-me os sentidos sem eu me aperceber.
-Posso? perguntou puxando a cadeira ao lado da minha. Nem respondi e ele sentou-se, justificando que tinha ouvido a conversa, e que já não conseguia ter paciência para os franceses, que eu o tinha de ajudar a ver-se livre do colega que se aproximava acenando alegremente com o jornal debaixo do braço…
-Tem preferência pela forma de extermínio? Perguntei séria e profissional, tirando um cigarro do maço que o Don Juan me estendia.
-Só o consigo imaginar degolado… O homem fala pelos cotovelos, até tem aberturas no casaco!
-Degolado nos dias de hoje é pouco comum, vou ver o que se consegue arranjar.
O tal colega barrigudo e de sorriso permanente no rosto preparava-se para ocupar a terceira das quatro cadeiras da mesa, quando o senhor perfumado de cigarro pousado no canto do lábio se levantou e me apresentou.
-Laissez-moi vous présenter à …. Marta, ami de longue date ... vient d'arriver à Paris et j'ai promis de l'emmener pour un tour …
- Je m´appelle Judite!
-Pardonne-moi… Judite! Corou o individuo perfumado.
-Enchanté mademoiselle! Disse o senhor barrigudo mas cordial, apertando-me a mão gentilmente.
Deixei-me arrastar pelo ar certo dele, toda a composição lhe assentava como uma luva, desde a camisa em linho descontraída casada com umas calças claras, o cabelo denso e escuro salpicado em prata, o olhar indeciso entre um azul e cinzento. Olhei para trás para o senhor desolado entregue ao jornal, e o empregado quase feliz com a gorjeta que o cavalheiro galante lhe deixara juntamente com o pagamento da minha despesa, enquanto nos dirigíamos para Place des Vosges.
-Juan Belmonte ao seu dispor! Apresentou-se fazendo uma vénia teatral.
-Como o toureiro que lia livros?
-Prefiro as leituras às lides…! Disse com um sorriso modesto nos lábios. – Janta comigo, é o mínimo que posso fazer por me teres salvo da companhia do belga.
-Não te conheço de lado nenhum, Juan Belmonte!
-Mas não é isso que eu sinto… e não é isso que tu sentes…pois não? O homem nunca se deve por em posição de perder o que não se pode dar ao luxo de perder.
-Hemingway…
-Sinto que te conheço… sei que te conheço… aliás… E fez uma pausa absorvendo do ar uma porção invisível de eloquência. - Sei tudo o que há para saber sobre ti!
Um calafrio percorreu-me a espinha e procurei controlar os sentidos enrolando no pescoço o lenço indiano em tons quentes. Mas não era o calor da seda que eu sentia, mas dos seus dedos, puxando-me a boca na direcção da dele. Savolium, como os romanos denominavam o beijo profundo.
O primeiro de todos os beijos sacudiu-me leve pelo éter como se fosse uma pena, privando-me da segurança do chão. O segundo de todos os outros estremeceu a terra fazendo com que as estrelas perdessem o seu lugar, e no terceiro senti-me explodir de prazer, inundado o meu sexo desejei morrer naquele instante. Chamou um táxi. As mãos exploravam o que os olhos não viam, deixando-se guiar como amantes cegos ávidos de prazer. Paris passava iluminada ao anoitecer pelas janelas do automóvel, mas que interessava agora...
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