Consoante o tempo que dedicava a uma amizade, isso manifestava-se na
dificuldade em escolher uma prenda para oferecer. Procurei lembrar o que
tinha comprado no ano anterior, senti necessidade de começar a tomar
notas, fazer uma agenda com as datas e completar com os respectivos
presentes, adicionando lembretes fundamentais, como por exemplo não
oferecer brincos à Elvira… só reparei que nem sequer tinha as orelhas
furadas quando ela ficou com um sorriso amarelo, mirando com estranheza
para os pendentes com contas indianas que lhe comprei pelo Natal.
Deambulei meia perdida pelas estantes repletas de livros, a
quantidade de sugestões e edições era assombrosa, cada vez que lia a
contracapa de um título sugestivo, ainda ficava mais indecisa. E
senti-o, silencioso mas presente, asas albas que sussurravam em
uníssono: Tânatos…
-Trabalhas aqui? Perguntei, sem o encarar, mantendo os olhos na primeira contracapa que me apareceu pela frente.
-Sim… em que posso ajudar? Disse numa voz tranquila mas repleta de descrença, ocultando a pergunta que lhe ocupava a mente.
-Precisava de ajuda na escolha de um livro… um presente de
aniversário. E olhei-o directamente nos olhos doces… terrivelmente
doces. Fraquejei e ele sentiu, desviando a doçura para os livros nas
estantes.
-Preferência por autor? Disse caminhando à minha frente… prendendo a
minha atenção nas suas asas brancas, comuns mas invulgares, que se
encolhiam na minha presença…
-Pergunta o que quiseres sobre mim…
Ele sorriu e percorreu duas estantes com a ponta dos dedos sobre as
saliências das capas. Parecia um domador de lombadas, pronunciando
palavras mágicas inaudíveis para os meus ouvidos, travando uma secreta
conversação com os títulos. Voltou com um livro na mão e libertou a
pergunta que mantinha aprisionada, não sei se por timidez ou polidez...
-Asas de Tânatos… És a morte?
-Não, sou apenas uma mensageira…
-Nunca vi umas asas como as tuas…
-Não há muitas por ai.
Ficamos especados, medindo o comprimento das palavras, escutando
o que as asas nos diziam, e o que recitavam ou declamavam umas às
outras, até sermos interrompidos por um ser desasado. Num tom estridente
e ausente de delicadeza, reclamou a atenção dos olhos de mel. Ele muito
cordial pediu um minuto à senhora vermelha de raiva, retomando o olhar
na minha direcção. Sorte a dela não ser a mim direccionada aquela raiva,
apetecia-me sentir o frio do gatilho e ter a sua cabeça redonda e
vermelha na mira da minha arma…
-Recomendo este… se não gostar pode sempre trocar… no entanto deixo o
aviso, os livros assim como as pessoas, não gostam de ser devolvidos às
estantes, ficam ressentidos…
Sorri, tinha um jeito peculiar de falar que enfeitiçava tanto os
livros como quem os lia. Agradeci a prestável ajuda e sai sem olhar para
trás, sentindo os seus olhos ainda presos nas minhas asas.
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