quinta-feira, 13 de outubro de 2011

o domador alado

Consoante o tempo que dedicava a uma amizade, isso manifestava-se na dificuldade em escolher uma prenda para oferecer. Procurei lembrar o que tinha comprado no ano anterior, senti necessidade de começar a tomar notas, fazer uma agenda com as datas e completar com os respectivos presentes, adicionando lembretes fundamentais, como por exemplo não oferecer brincos à Elvira… só reparei que nem sequer tinha as orelhas furadas quando ela ficou com um sorriso amarelo, mirando com estranheza para os pendentes com contas indianas que lhe comprei pelo Natal.

Deambulei meia perdida pelas estantes repletas de livros, a quantidade de sugestões e edições era assombrosa, cada vez que lia a contracapa de um título sugestivo, ainda ficava mais indecisa. E senti-o, silencioso mas presente, asas albas que sussurravam em uníssono: Tânatos…
-Trabalhas aqui? Perguntei, sem o encarar, mantendo os olhos na primeira contracapa que me apareceu pela frente.
-Sim… em que posso ajudar? Disse numa voz tranquila mas repleta de descrença, ocultando a pergunta que lhe ocupava a mente.
-Precisava de ajuda na escolha de um livro… um presente de aniversário. E olhei-o directamente nos olhos doces… terrivelmente doces. Fraquejei e ele sentiu, desviando a doçura para os livros nas estantes.
-Preferência por autor? Disse caminhando à minha frente… prendendo a minha atenção nas suas asas brancas, comuns mas invulgares, que se encolhiam na minha presença…
-Pergunta o que quiseres sobre mim…
Ele sorriu e percorreu duas estantes com a ponta dos dedos sobre as saliências das capas. Parecia um domador de lombadas, pronunciando palavras mágicas inaudíveis para os meus ouvidos, travando uma secreta conversação com os títulos. Voltou com um livro na mão e libertou a pergunta que mantinha aprisionada, não sei se por timidez ou polidez...
-Asas de Tânatos… És a morte?
-Não, sou apenas uma mensageira…
-Nunca vi umas asas como as tuas…
-Não há muitas por ai.

Ficamos especados, medindo o comprimento das palavras, escutando o que as asas nos diziam, e o que recitavam ou declamavam umas às outras, até sermos interrompidos por um ser desasado. Num tom estridente e ausente de delicadeza, reclamou a atenção dos olhos de mel. Ele muito cordial pediu um minuto à senhora vermelha de raiva, retomando o olhar na minha direcção. Sorte a dela não ser a mim direccionada aquela raiva, apetecia-me sentir o frio do gatilho e ter a sua cabeça redonda e vermelha na mira da minha arma…
-Recomendo este… se não gostar pode sempre trocar… no entanto deixo o aviso, os livros assim como as pessoas, não gostam de ser devolvidos às estantes, ficam ressentidos…
Sorri, tinha um jeito peculiar de falar que enfeitiçava tanto os livros como quem os lia. Agradeci a prestável ajuda e sai sem olhar para trás, sentindo os seus olhos ainda presos nas minhas asas.

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