segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Omnes vulnerant

Deitaste-me no chão como na aurora do Mundo, cobrindo-me com um manto de estrelas na lenta movimentação pelo celeste, e em silêncio, beijamos a Lua com a ponta dos dedos.

O peso do escudo que ostentava o confronto entre a Quimera e Belerofonte, já não se sustinha no antebraço, o herói montado em Pégaso derrotava o monstro que bafejava fogo.
Arranquei o elmo adornado de crina escarlate todo ele salpicado de sangue, deixando-o cair pesado por terra. Sufocava sob o metal finamente gravado com intrincados desenhos lembrando anfisbenas. Apartei o cabelo colado ao rosto pelo esforço, respiro.

A lança abandonada num dorso moribundo, não voltaria a ser arremessada pela mão tão habituada, e apenas o xiphos se mantinha atado, oscilante por debaixo do braço esquerdo. Senti-lhe o punho já gasto tingido de suor, como um amigo a quem se abraça, o fiel gume limpo de sangue, enterrado para a eternidade na doce bainha.

As ruínas recortavam o luar em formas estranhas, seres que conspiravam animados pelo nocturno, projectando sombras sem movimento. Nunca temes o que se oculta por detrás destes edifícios, o que foi em tempos um império, não passam agora de escombros esquecidos. Tenho frio.

Deslacei as tiras de couro, a túnica de linho sob a couraça absorvia o sangue numa pasta húmida e quente. A batalha ainda não tinha chegado ao fim e eu tombava aos teus pés, destituída de forças, mãos ensanguentadas, negras da terra que tudo engole. Não há poro em mim que não se encha dela, começou por se acumular debaixo das unhas, lentamente depositou-se debaixo da pele, o que era apenas poeira, cinza, tornou-se uma segunda camada viva. Preencho-me com ela para ocupar o vazio que em mim vai crescendo, o vazio que vais deixando.

Tens os olhos marejados turvos de sal. Não feches a ferida que abriste, quero que ela sangre continuamente, recordando-me o torpor avassalador que exerces sobre mim. O inverno não tarda, as folhas já abandonaram os ramos mais altos e cobrem os braços do vento.
Prostrada do ferimento, perco o olhar algures no infinito. Sinto o leve caudal morno que escorre do peito em direcção ao ventre, transpõem o feltro que forra as cnémides atadas às tíbias, manchando o teu manto dourado.
Omnes vulnerant, ultima necat.* Disse, depondo as minhas armas, abrindo mão de ti para sempre.

*Todas (as horas) ferem, a derradeira mata.

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