Acordei em sobressalto, o coração a mil parece querer cavalgar sem
arreios pelo peito, descontrolado, ainda sinto as mãos dele em volta do
meu pescoço, tão real como se tivesse mesmo acontecido, a pressão na
cartilagem da traqueia, mãos firmes, e no meu agitar vertia as forças
que se perdiam, braços pesados como chumbo, pernas congeladas, amarradas
sem acção… queria gritar, atingir com dureza aquele rosto ausente de
gente, de voz, de cheiro… uma cara vazia, mas era ele sem dúvida, aquele
que por vezes me atormenta, em silêncio me habita o sonho,
infiltrando-se sorrateiramente pela madrugada nos meus pesadelos. Um
arrepio percorre-me, mas estou a salvo.
Voltei-me depois de confirmar com um sorriso que ainda tinha
três horas para dormir, dá-me sempre alguma tranquilidade saber que
ainda me resta tempo, e três horas parecem uma eternidade. Raramente
retorno ao pesadelo, mesmo que me sinta com forças e no intimo o queira
confrontar, armada até aos dentes… prefiro não o fazer, fecho os olhos e
espero o aconchego de um sonho… um sonho especial… daqueles como o
outro chamou de Puff... Mesmo que no fim desapareça numa nuvem!
Encolho-me, está mais frio, sei que de lado ele não volta para
me importunar. Porque será que isto acontece? Sempre que acordo de um
pesadelo encontro-me em posição de decúbito dorsal. Será maior o esforço
para respirar, e o cérebro fica privado de algum oxigénio, ou será que
não passa de um medo ancestral, expor o abdómen relaxadamente… algo
digno de um animal dominante, já vi alguns felinos dormirem assim, mas o
instinto diz-nos que devemos assumir uma posição mais defensiva, e até
porque sinto frio, encolho-me. E enquanto penso nisto, desligo
lentamente o meu consciente… Uma libelinha desenha um voo à minha
frente, pousando num bule de chá...
Sem comentários:
Enviar um comentário