terça-feira, 29 de novembro de 2011

Sr. Pontual

Atravessei o corredor o mais apressada que os meus saltos permitiam, está mais que comprovado que não foram feitos para maratonas, são lindos, são novos e o latejar no calcanhar é o prelúdio para um dia longo. A secretária já me esperava ao alto forçando um sorriso nos lábios bem delineados, encarnado vivo sob uma pele imaculadamente branca, encaminhando-me com um gesto para a sala de reuniões.

De pé junto à janela, olha para o relógio no preciso momento em que entro ofegante, desfazendo-me em desculpas. Sabe que me irrita com aquele gesto, faz de propósito para me provocar, depois arranja o punho da camisa impecável, como tudo o resto nele. O meu director sorri, levanta-se para me cumprimentar, apertando as minhas mãos nas dele, e depois diz baixinho, galanteador como sempre: tivesse eu menos trinta anos…

Dá início à reunião depois de atirar pelo ar um olhar reprovador que eu adoro, era capaz de o fazer esperar várias horas só para ver aquele azul reduzido a cinza, vezes e vezes sem conta. É conhecido pelo rigor, excelente profissional, a pontualidade dizem que herdou juntamente com uma avultada quantia de dinheiro, uma costela britânica por parte da mãe. O director decide fazer mais uma observação … estivesse eu no lugar dele… não a deixava sair desta sala sem um convite para jantar! E sorri. Ele parece irritado com os nossos segredos e sorrisos cúmplices.

No fim da reunião fica à minha espera, o meu director parece ter tudo pensado e arrasta as restantes pessoas para fora da sala, discute pormenores técnicos com os demais colaboradores, deixando-me para trás com ele. Ainda não entendi o que vim aqui fazer.
Segura-me a porta com falsa cortesia, mira-me de cima a baixo, sinto-o com o olhar e depois com a mão numa dança pelas minhas costas, até a assentar de dedos abertos na nádega mais próxima. Aperta-me de forma excitante contra ele.

Às 21 em minha casa? Desafio, humedecendo o lábio inferior que deseja ser beijado. Inclina a cabeça próximo da minha sem me tocar, e diz num sussurro rouco: às 21 em ponto lá estarei … já sei que vou ter de esperar… mas não me importo!
Às vinte e uma, nem mais nem menos um minuto ou segundo que seja, ele chega. Recebo-o à porta em lingerie, atrasada como sempre.
Gosto dos teus atrasos, diz-me correndo os dedos pelo meu decote, arrepiando-me a derme.

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