Sente-se bem? Sussurra o Sr. Piercing, estendendo um maço de lenços aberto.
Aos primeiríssimos acordes da nona de Beethoven, não contive as
lágrimas cheias que me rasgaram o rosto, caindo desamparadas nas mãos
que seguravam a emoção na echarpe. Foi assim que conheci o Sr. Piercing,
na sala Suggia de uma noite de lua cheia, emocionada por uma
interpretação magnífica. Ao intervalo devolvi-lhe o maço fechado, e
reparei no piercing discreto que ostentava no trago de uma orelha
perfeita. Segui atenta o desenho do lóbulo, o recorte da hélix
cartilaginosa, a depressão da concha… absolutamente distinta! O concerto
ainda não tinha recomeçado, mas eu dirigia-me a ele junto ao ouvido,
agradecendo a preocupação, elogiando o pavilhão auditivo!
A nona sinfonia foi apresentada pela primeira vez a 7 de Maio de
1824, no Kärntnertortheater, em Viena. Beethoven foi dissuadido da
regência devido ao seu avançado estado de surdez, tendo direito a um
lugar especial no palco, junto ao maestro. Sonho com essa estreia, como
terá sido comovente, e no final toda a plateia a aplaudir de pé, cinco
vezes! Imagino o colorido dos lenços e dos chapéus erguidos no ar, para
que Beethoven que não ouvia, pudesse pelo menos ver.
A plateia aplaudiu duas vezes, em pé. Aproveitei a segunda para
voltar a contemplar a perfeição da aurícula, desejosa por saber se a
outra também era assim… convidou-me para um café. E do estímulo quente
do vício, saiu outro convite… um passeio, da minha língua, na orla da
sua orelha! Desde esse dia ganhou a alcunha de Sr. Piercing.
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