terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sr. Pecado

Estiquei os braços num longo espreguiçar, retesei os pés no limite quente do lençol. A outra metade da cama era fria quando vazia, senti a falta de um café forte e de algo que me confortasse o estômago. Apesar de ser feriado, incitei o corpo a abandonar a preguiça, metendo os pés nas pantufas de pêlo de ovelha, enrolando-me num largo casaco de malha.

Tomei o pequeno-almoço na poltrona voltada para a varanda, a casa em silêncio, lá fora um dia claro cheio de Outono apelava ao recolher. Precisava de mudar a pelagem, como uma raposa que sente o branco invernoso avançar, resgatar da zona mais recôndita do roupeiro os agasalhos quentes. A manhã torna-se proveitosa, o tempo verte-se lento e acumula sacos de excessos junto à porta, com destino determinado.

Desço à arrecadação por detrás dos lugares de garagem, a quietude é pontualmente interrompida pelas bombas da cisterna e pelo automatismo da porta que anuncia a chegada ou a saída de um veículo. O silêncio mortiço não me incomoda minimamente, perco-me pelos objectos aqui deixados. Um carro estaciona, o motor cala-se e é substituído pelo trautear de uma melodia conhecida. Reconheço a voz, canta ocasionalmente no chuveiro…

Se o pecado mora ao lado, estou sem dúvida a falar no vizinho do quarto direito. Segura a porta do elevador quando me vê surgir, e depois ajuda-me com a caixa cheia de livros que resolvi expiar do esquecimento. Parou de cantar, faz conversa de circunstância acompanhando-me até ao meu capacho.

Existem diversos pecados, desde os mortais aos veniais, sendo estes últimos mais leves, ligeiros… mas se não confessados, levam-nos ao Purgatório. Oh! O Purgatório… não me importava de o visitar pelo braço deste diabo de biceps musculados, mãos largas e um queixo quase quadrado. Convido a entrar e a aquecer-me.
Se o pecado morasse ao vosso lado, batiam-lhe à porta, ou mudavam de endereço? Desde esse dia ganhou a alcunha de Sr. Pecado.

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