Estiquei os braços num longo espreguiçar, retesei os pés no limite
quente do lençol. A outra metade da cama era fria quando vazia, senti a
falta de um café forte e de algo que me confortasse o estômago. Apesar
de ser feriado, incitei o corpo a abandonar a preguiça, metendo os pés
nas pantufas de pêlo de ovelha, enrolando-me num largo casaco de malha.
Tomei o pequeno-almoço na poltrona voltada para a varanda, a
casa em silêncio, lá fora um dia claro cheio de Outono apelava ao
recolher. Precisava de mudar a pelagem, como uma raposa que sente o
branco invernoso avançar, resgatar da zona mais recôndita do roupeiro os
agasalhos quentes. A manhã torna-se proveitosa, o tempo verte-se lento e
acumula sacos de excessos junto à porta, com destino determinado.
Desço à arrecadação por detrás dos lugares de garagem, a
quietude é pontualmente interrompida pelas bombas da cisterna e pelo
automatismo da porta que anuncia a chegada ou a saída de um veículo. O
silêncio mortiço não me incomoda minimamente, perco-me pelos objectos
aqui deixados. Um carro estaciona, o motor cala-se e é substituído pelo
trautear de uma melodia conhecida. Reconheço a voz, canta ocasionalmente
no chuveiro…
Se o pecado mora ao lado, estou sem dúvida a falar no vizinho do
quarto direito. Segura a porta do elevador quando me vê surgir, e
depois ajuda-me com a caixa cheia de livros que resolvi expiar do
esquecimento. Parou de cantar, faz conversa de circunstância
acompanhando-me até ao meu capacho.
Existem diversos pecados, desde os mortais aos veniais, sendo
estes últimos mais leves, ligeiros… mas se não confessados, levam-nos ao
Purgatório. Oh! O Purgatório… não me importava de o visitar pelo braço
deste diabo de biceps musculados, mãos largas e um queixo quase
quadrado. Convido a entrar e a aquecer-me.
Se o pecado morasse ao vosso lado, batiam-lhe à porta, ou mudavam de endereço? Desde esse dia ganhou a alcunha de Sr. Pecado.

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