Não me responde, parece que aprendeu comigo, apenas sorri e tem um jeito
muito próprio de o fazer, não é excepcionalmente belo, tem algo de
estranho, talvez seja isso que me encanta. Esta singularidade diabólica
que desenha nos lábios, um lobo matreiro de dentes aguçados,
dissimulados numa branda pelagem de carneiro.
A mão desliza do joelho para o interior da coxa, o que era
apenas dedos a passearem inocentemente pela minha derme arrepiada,
tornam-se repentinamente num toque excitante, e confessa o quanto está
feliz por me ter encontrado. Convido-o para me fazer companhia até à
praia, conheço um areal pequeno, praticamente deserto pela arriba que
dificulta o acesso. Inclina-se sobre mim para me beijar, os lábios
encontram-se, sinto a garganta seca, o coração dispara, abro
ligeiramente as pernas em perfeita e distante sincronia com os lábios,
os dedos dele tocam-me, e a língua vai entrando numa boca que já conhece
sem constrangimentos. Suga-me, enrosca-se qual trepadeira, deliciosa a
boca, infernais os dedos.
Empurro-o, resisto, reclina-se na lona com ar satisfeito, sabe o
que provoca, acabou de o saborear na ponta dos dedos que lambe com
prazer. Quem o vê até julga que está saciado com um lauto manjar. Não
são dedos nem pele, parecem mais garras cobertas de escamas aveludadas,
escarlates lâminas que se cravam em mim. Paga os cafés e a água que
escorreu veloz na minha garganta, levo-o pelo braço enrolado no meu,
deixa-se ir mais uma vez sem desculpas, confiando nos meus instintos de
navegante até à orla marítima, onde a vegetação sucumbe ao vento.
O negro das altas escarpas xistosas funde-se ao longe com vales
cobertos de verde, numerosos veios avermelhados e alaranjados rasgam a
superfície da falésia, um areal dourado tranquilo repousa no fundo, qual
tesouro escondido de olhares alheios, banhado por um mar que oscila nas
vagas e brinda-nos com a brisa fresca deixando o sabor do sal retido na
pele. Uma praia quase deserta, um fim de dia que reclama o sol e
entrega em justa recompensa a noite, sentando-se no trono uma lua nem
tão cheia quanto isso.
Os corpos nus encontram-se depois de beijados pelo mar morno,
dissimulados do mundo numa reentrância escavada na pedra solta pela
força da natureza. Apoia-me numa rocha mais lisa, abre-me para que o
receba em investidas compassadas, como as ondas que rebentam, abruptas,
espumadas na areia, sinto-o dentro de mim, num momento infinito até me
afogar nele. Sela o acto com um beijo. Um beijo terno, em tudo idêntico
ao que demos à porta do hotel em Bratislava. Encosta a cabeça à minha,
olhos de um profundo cinzento, doce abismo para a minha alma.
-que rocha escura é aquela? Aponto para a escarpa que desce
abrupta. O mesmo sorriso intrincado surge no lábio, e na pronúncia que
aperta os erres responde.
- fine-grained igneous rocks… Schist! Rise in proud hills, carved
out by the hand of time, rocky tones face the watery depths of blue and
the emerald green of the ocean floor…
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