sábado, 5 de novembro de 2011

na zdravie! capítulo IV

Não me responde, parece que aprendeu comigo, apenas sorri e tem um jeito muito próprio de o fazer, não é excepcionalmente belo, tem algo de estranho, talvez seja isso que me encanta. Esta singularidade diabólica que desenha nos lábios, um lobo matreiro de dentes aguçados, dissimulados numa branda pelagem de carneiro.

A mão desliza do joelho para o interior da coxa, o que era apenas dedos a passearem inocentemente pela minha derme arrepiada, tornam-se repentinamente num toque excitante, e confessa o quanto está feliz por me ter encontrado. Convido-o para me fazer companhia até à praia, conheço um areal pequeno, praticamente deserto pela arriba que dificulta o acesso. Inclina-se sobre mim para me beijar, os lábios encontram-se, sinto a garganta seca, o coração dispara, abro ligeiramente as pernas em perfeita e distante sincronia com os lábios, os dedos dele tocam-me, e a língua vai entrando numa boca que já conhece sem constrangimentos. Suga-me, enrosca-se qual trepadeira, deliciosa a boca, infernais os dedos.

Empurro-o, resisto, reclina-se na lona com ar satisfeito, sabe o que provoca, acabou de o saborear na ponta dos dedos que lambe com prazer. Quem o vê até julga que está saciado com um lauto manjar. Não são dedos nem pele, parecem mais garras cobertas de escamas aveludadas, escarlates lâminas que se cravam em mim. Paga os cafés e a água que escorreu veloz na minha garganta, levo-o pelo braço enrolado no meu, deixa-se ir mais uma vez sem desculpas, confiando nos meus instintos de navegante até à orla marítima, onde a vegetação sucumbe ao vento.

O negro das altas escarpas xistosas funde-se ao longe com vales cobertos de verde, numerosos veios avermelhados e alaranjados rasgam a superfície da falésia, um areal dourado tranquilo repousa no fundo, qual tesouro escondido de olhares alheios, banhado por um mar que oscila nas vagas e brinda-nos com a brisa fresca deixando o sabor do sal retido na pele. Uma praia quase deserta, um fim de dia que reclama o sol e entrega em justa recompensa a noite, sentando-se no trono uma lua nem tão cheia quanto isso.

Os corpos nus encontram-se depois de beijados pelo mar morno, dissimulados do mundo numa reentrância escavada na pedra solta pela força da natureza. Apoia-me numa rocha mais lisa, abre-me para que o receba em investidas compassadas, como as ondas que rebentam, abruptas, espumadas na areia, sinto-o dentro de mim, num momento infinito até me afogar nele. Sela o acto com um beijo. Um beijo terno, em tudo idêntico ao que demos à porta do hotel em Bratislava. Encosta a cabeça à minha, olhos de um profundo cinzento, doce abismo para a minha alma.

-que rocha escura é aquela? Aponto para a escarpa que desce abrupta. O mesmo sorriso intrincado surge no lábio, e na pronúncia que aperta os erres responde.
- fine-grained igneous rocks… Schist! Rise in proud hills, carved out by the hand of time, rocky tones face the watery depths of blue and the emerald green of the ocean floor…

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