segunda-feira, 19 de setembro de 2011

a leveza da irreversibilidade

O ar fragilizado e enrugado deu-me uma certa nostalgia, afeiçoei-me como se fosse um enorme cão velho abandonado à chuva, de pêlo encharcado. Dormia um sono muito leve, como uma pena que levita à passagem invisível do ar, o simples desengatilhar do travão de segurança acordou-o. Nos olhos aquele azul enigmático, opaco de dor, uma réstia colorida de tempos áureos. Sorriu ao ver-me de arma em punho, não era uma execução que me desse grande prazer, mas alguém tinha de o fazer, e ao menos eu podia assegurar que partiria com o respeito e dignidade que a idade pedia.

Estava no fim, a vida tinha sido uma sucessão de erros, não era um ser humano perfeito e as opções que tomara e o caminho que traçara, continuavam a incomodava muita gente. Mas agora era um trapo, um pedaço de pele cinzenta tolhida aos ossos, consumido pela doença, aprisionado até ao fim a um cancro.

-se soubesse que a morte era tão bela, já me tinha rendido há mais tempo, quando eu ainda era homem.
-meu querido, a doença afectou-te o juízo. Nem eu sou assim tão bela nem tu deixaste de ser homem.
-tive os meus dias, isto que agora vês nem sequer é uma sombra do que fui. Faz o que te trouxe aqui, nem imaginas o quanto te esperei.
-por ser para ti dou-te a escolher entre a bala ou o químico.
-de certeza que quem te enviou quer o assunto arrumado com um cartucho vazio, e eu prefiro que assim seja, assegura-te apenas que quando saíres por aquela porta, eu estou bem morto.
-mais alguma coisa?
-um último desejo, gostaria de saber o nome da minha executora.
-Judith
-apropriado para uma assassina, muito prazer em conhecer-te Judith. Estendeu-me a mão esquerda que cumprimentei e mantive apertada.
- não tenho comigo nenhum cartão de visita, se não deixava-te um para quem sabe, no futuro, caso viesses a precisar.
-mortalmente bela e com sentido de humor, haverá quem te resista?
-dificilmente meu querido. Aponto a arma, um som abafado pelo silenciador determina o fim.

Sem comentários:

Enviar um comentário