A manhã amena e a vista privilegiada sobre a parte velha de Bratislava, foram motivos mais do que sobejos para pedir o pequeno-almoço na varanda. Enrolados nos roupões brancos, cabelos ainda molhados do duche partilhado, esfomeados de alimento mas saciados de prazer.
O café é uma água tingida que misturo com um pouco de leite. Fruta fatiada, compotas de citrinos e amoras ligeiramente ácidas, que ligam com pãezinhos adocicados, ainda quentes. Falo-lhe da vista, o edifício da Ópera Nacional e a praça Hviezdoslav, o castelo no sopé da colina, o mesmo que se pode ver nas recentes moedas de 10, 20 e 50 cêntimos, catedrais e igrejas, e os lindíssimos palácios barrocos. Fuma um cigarro em silêncio, caídos nas cadeiras, cansados dos excessos, cruzo as minhas pernas por cima das dele e ficamos a observar os pássaros, atentos ao murmúrio da cidade que lentamente desperta num dia claro.
Foi a última vez nos vimos, despedimo-nos à porta do Carlton com um beijo demorado, entrei num táxi que me deixou umas ruas mais à frente junto ao meu hotel. Em poucos minutos troquei de roupa e calçado, um prático vestido solto de ganga, um lenço ao pescoço para dar alguma cor ao conjunto, umas sandálias rasas confortáveis e uma pequena mochila. Amarrei o cabelo e passei pelo rosto um hidratante, uns óculos de sol e a máquina fotográfica a tiracolo, davam-me o ar de turista necessário para passar despercebida no meio da multidão.
O alvo a abater era uma mulher, apesar de não ser muito comum, estava perfeitamente à vontade com isso. Aceito que até seja mais fácil para mim fazê-lo do que para um homem, pelo menos eu não corro o risco de ser seduzida por uma vítima mais ardilosa. Não seria o caso, era uma execução, nem sequer me aproximaria o suficiente para lhe ver a cor dos olhos.
A estação de comboios destoa com a modernidade do comboio austríaco. Antes de comprar o bilhete para Viena, levantei um saco de tecido cor-de-rosa com a Hello Kitty de um cacifo, estes clientes têm um sentido de humor peculiar. Só abri o conteúdo depois de entrar no comboio. Para além de um passaporte com nacionalidade americana que me identificava como Sophie, uma rifle de alta precisão de fabrico suíço, tal como eu tinha requisitado, e um iphone com alguma informação sobre o alvo, horários das suas actividades diárias, e a cópia da sua agenda para aquele dia. Tinha ainda indicações das coordenadas de GPS para onde me devia dirigir, a que apartamento subir, bem como chaves de acesso a esse mesmo edifício.
Era uma execução que se queria rápida, metodicamente posicionei-me junto à janela, montei a arma, ajustei a mira, um único disparo direccionado à cabeça, silenciosamente mortal. Deixei o edifício pelas traseiras, ao longe já se ouviam sirenes, mas podia ser apenas a minha imaginação e dirigi-me para o caís. Almocei a bordo do catamarã com destino a Bratislava, e entreguei às águas densas do Danúbio a arma e todo o restante conteúdo do saco.
Enviei uma mensagem a Alena agradecendo o convite, que a festa estava fantástica e ela a noiva mais linda que eu já tinha visto, e claro, um pedindo de desculpas por ter saído repentinamente. Respondeu-me logo de seguida, dizendo que estava de partida para lua-de-mel, mas que o avião estava atrasado. Ainda a apanhei no aeroporto, tomamos um chá e falamos do Galês, fiquei a saber que era geólogo, grande amigo do seu recente marido que esperava impaciente pelo avião, parece que se conhecem dos tempos de faculdade.
Não tinha ar de geólogo, nem de calções e havainas. Mais depressa o imaginava como escritor pela suavidade das mãos e dos gestos, ou com uma farda azul a pilotar um F16, mas isso talvez fosse só inspiração dos Ray-Ban aviador que usava. Cumprimentei-o com um beijo no rosto, voltamos a estar sentados frente a frente, numa mesa mais pequena, também redonda mas de esplanada, sem convidados ou brindes desastrosos. Conversamos de futilidades atmosféricas, de lugares comuns, a mão dele deslizou pelo meu joelho, relembrando-me como eram macios os seus dedos.
-Diz-me, como é que um geólogo tem mãos tão macias?
(publicado a 20 de Agosto de 2011)
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