quinta-feira, 15 de setembro de 2011

na zdravie! capítulo I

Não sei como o ouvi chamar por mim do outro lado da rua com todo o movimento. É sempre uma confusão esta rua, alternada de esplanadas e lojinhas que se estendem dos seus parcos interiores, e ocupam metade dos passeios em calçada branca. Turistas atordoados, embriagados de consumo, procuram uma lembrança, enchem malas de bugigangas, inutilidades que transportam além fronteiras. E depois ainda há os automóveis largados junto ao passeio apesar da sinalização que diz ser proibido, uma via de sentido único, que mais se parece com um parque de estacionamento. Atravessou sem olhar, um carro buzinou e deu uma corrida pedindo desculpa ao condutor, esboçando um leve sorriso. Não o reconheci, bronzeado de calções e havainas, com barba de um ou dois dias levemente aclarada pelo sol.

Foi mais ou menos por está altura, há dois anos atrás. O convite vinha no meio das habituais resmas de publicidade que me atravancam a acanhada caixa de correio. Um envelope branco, distinguível dos demais pelo seu formato de carta, um selo estrangeiro, e uma caligrafia cuidada de um remetente distante… Eslováquia.
Alena era uma das raras amigas que mantive do tempo de juventude. Não sou pessoa de grandes laços emocionais, não crio raízes, mas por motivos de sanidade mental mantenho alguns contactos, um grupo de amigos restrito, para às vezes recordar que sou humana sob esta pele. E depois os amigos são sempre álibis perfeitos. O convite de casamento veio mesmo a calhar, tinha um pequeno problema para resolver em solo austriaco, Bratislava ficava mais ou menos a 66 km de Viena, supostamente as capitais mais próximas do mundo, mesmo viajando de comboio, em menos de quatro horas voltava às margens eslovacas do Danúbio, e misturava-me no meio dos demais turistas.

Ficamos sentados sensivelmente frente a frente, numa mesa redonda de doze pessoas, separados por pratos e pratinhos, talheres e copos, jarras com flores numa decoração muito campestre e até um pouco inusual, mas que ligava com o ambiente exterior do jardim, das cadeiras de orquestra em madeira, aligeiradas as traves por confortáveis coxins. Não conhecia ninguém para além dos noivos, e o meu eslovaco era muito limitado, sabia dizer ahoj, voda que é água, vino e pivo, e pedir uma aspirina ou perguntar pela toalety-damy,o inevitável para quem só sabia pedir bebidas. Tinha reparado nele durante a cerimónia religiosa precisamente porque se isolou no fundo da pequena igreja, sobressaindo dos restantes convidados.

Alena sentou-me junto a uma amiga que falava fluentemente espanhol, e que ia traduzindo na medida do possível o que eu não entendia, só me irritava é que me assediava constantemente, tocando-me na perna, no braço, aproximando-se de mim para falar, de um jeito que me deixava desconfortável. Quando começaram a servir o prato principal, as minhas suspeitas de que ele não era eslovaco tornaram-se evidentes pelo olhar de desconfiança que atirou à travessa. Kura s Ryžou a Hubami, frango com arroz e cogumelos, disse-lhe em inglês que eram vísceras de borrego, e que o segundo prato era peixe… ele agradeceu a dica e esperou pelo prato seguinte. Quando o empregado apresentou o segundo prato, Treska, uma salada de bacalhau bastante avinagrada, o desgraçado não conseguiu meter à boca mais do que uma garfada. Expliquei o que era, e disse que ele teria gostado do prato anterior, e que não eram vísceras de borrego mas sim peito de frango com cogumelos. Ele riu, se o sotaque inglês carregado em erre já o enchia de charme, aquele sorriso derretia o coração mais gélido. Fui à cozinha e por gestos e meias palavras lá consegui um prato de Kura s Ryzou a Hubami para a vítima da minha brincadeira.

(publicado a 17 de Agosto de 2011)

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