Os doze centímetros de tacão ficaram parcialmente presos no espaço enlameado existente entre dois paralelos. A ideia era agradável, uma visita às caves antes do jantar, mas o calçado de cerimónia estava desajustado ao piso agredido pelo tempo. Baixou-se gentilmente e com um movimento controlado desencaixou o salto quase sem me tocar. Agradeci a cordialidade démodé, e continuamos na visita sem mais troca de palavras, adiantando-se no grupo para acompanhar alguém que seguia mais à frente.
Pelo menos uma vez por ano a minha presença é reclamada num jantar de gala oferecido pela empresa por altura da comemoração de mais um aniversário, serviram um aperitivo na sala anexa com vista para o jardim iluminado. Deixei o copo de Porto branco numa bandeja que passava e aproveitei o exterior para sentir o frio e cheirar a alfazema crescida nos canteiros. Ele aproximou-se, ofereceu um cigarro que recusei e ficamos a apreciar em silêncio a companhia um do outro. Pisou o cigarro antes de voltar à sala, despedindo-se com um até já.
Não o conhecia, não tínhamos sido apresentamos, podia ser um fornecedor ou cliente. Voltei à sala demasiado quente e pedi ao balcão um copo de água fresca. Atrás do vidro que separava o bar do salão de jantar de tecto alto, podia vê-lo em volta das mesas atrás de um empregado. Fiquei ainda mais curiosa, quem seria aquele homem dono de movimentos precisos, cabelos escuros que caiam em madeixas revoltas, um perfume másculo mas quase imperceptível, cativante pelo que não revelava, olhar tentador, morno, acumulado de mistério.
Guido abeira-se com grande alarido, fazendo-se anunciar a seis metros de mim. Beija-me a mão apertando-a nas suas, compensa com carácter e charme o que lhe falta em beleza. É mestre no domínio da arte de seduzir, este maldito romano que cobiça o meu decote. Escolhe as palavras que quero ouvir e exala-as naquela língua sensual perto do meu ouvido. Pedi para me sentarem ao teu lado, só vim nessa condição! Diz esperando ver-me derreter nos seus braços.
Quando as portas do salão principal se abrem anunciando que o jantar vai ser servido, ele segue-me bem de perto à procura do meu lugar. É com surpresa que volto a cruzar-me com o estranho que me libertou o salto, afasta a cadeira supostamente a mim reservada pela presença física de um cartão. Do meu lado esquerdo na mesa redonda não é o nome do italiano que consta.
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