quarta-feira, 21 de setembro de 2011

sinto-te

O som da chuva intensificou-se lá fora, puxei o lençol enrolado aos pés da cama, que a volúpia arrastou deixando os corpos descobertos. A madrugada acordava fria, o céu velado lembrava as manhãs de inverno, dias curtos em que o sol mal se sustenta no horizonte.

Voltei-me para ele, o rosto pacífico de Adónis, algures naufragado num sonho, exalando o ar de forma inaudível mas quente, vivo, num corpo belo despido. Os dedos vacilaram ao aproximarem-se de um ser tão perfeito, ansiava tocar-lhe, torna-lo real, senti-lo sob cada célula de mim, derme contra derme. Hesitei pela vontade de não o querer resgatar do sonho, ou talvez a ilusão fosse minha, um sonho personificado na forma de um deus fenício, que ali dormia junto a mim.

Deixei a cama em silêncio e nua, percorrendo a casa até à varanda, recebi a chuva escura que me saudou refrescante, gotas que me tocavam, encerrando nelas o cheiro dele, e se cheirava a ele, então era real, tão real como aquela chuva, que me despertava os sentidos. Provocado o desejo, ardendo no íntimo, voltei à cama, deixando para trás pegadas no soalho. Fria, molhada, por dentro e por fora, encostei-me ao seu corpo quente, real, imenso, deslizando por cima da sua pele, por baixo do lençol, aspirando a alma, vertendo-me nele.
Acordou afogado num sonho.

(publicado a 2 de Setembro de 2011)

Sem comentários:

Enviar um comentário