Por uma última vez, de Tânato apenas permaneceram as asas para ser Cupido por um dia... o coração de ferro e entranhas de bronze ganharam vida e acautelei-me da ponta afiada da seta que espera por ser lançada. Ainda mora na memória a cor do sangue vivo e brilhante, uma gota que alastrava na polpa do dedo. Levei-o à boca, o sabor salgado, ligeiramente metalizado da ferida aberta que a seta deixou. E a seta que a mim não me era destinada, mas sim a outra, por azar ou quem sabe a sina, a minha linha traçada pela lâmina do destino, o meu dedo picou. E mal os meus olhos encontraram os seus, a paixão levou-me num rodopio, meus pés apartaram-se do chão e eu deixei-me ir, de coração derretido, rendido, perdido.
Desta vez não posso errar, e só o faço porque não suporto o sofrimento destas duas almas agonizantes. Escolho cuidadosamente uma seta da minha aljava, encordoado o arco com esforço sob a minha perna nua, faço mira sobre aquela por quem o seu coração palpita, destinatária das suas palavras, musa inspiradora de noites e dias.
Que a seta do amor a atinja...

Sem comentários:
Enviar um comentário